Este trabalho está relacionado a atividade da Unidade Curricular sobre Biodiversidade, Geodiversidade e Conservação, promovida pelo Mestrado em Cidadania Ambiental e Participação, realizado pela Universidade Aberta de Portugal. Este texto apresenta reflexões sobre a biodiversidade nos espaços urbanos.
A biodiversidade nos ambientes urbanos
Conceitos gerais
Segundo a ONU (1992) biodiversidade pode ser entendida como "a variabilidade entre organismos vivos de todas as origens, incluindo, inter alia (latin: entre outras coisas), os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos dos quais fazem parte; isto inclui diversidade dentro de espécies, entre espécies e de ecossistemas". Neste contexto, os espaços urbanos representam ecossistemas.
Müller e Werner (2010) definem a biodiversidade urbana como "a variedade e a riqueza dos organismos vivos e a diversidade de habitats encontrados entre os limites dos assentamentos humanos". E Farinha-Marques et. al (2011) complementam esta definição ao observarem que a biodiversidade nos espaços urbanos deve ser compreendida desde áreas rurais até os núcleos urbanos, assim como deve-se considerar os remanescentes de ecossistemas primitivos, faces rochosas, paisagens agrícolas e paisagens urbano-industriais como as áreas residenciais, industriais, parques, lagos, jardins, dentre outros espaços.
Áreas urbanas e impactos
Segundo Schneider, Friedl e Potere (2010), as áreas construídas e urbanas ocupam, de forma surpreendente, menos que 1% da superfície terrestre, mas os efeitos da urbanização são profundos: Concentram mais de 50% da população humana, mais de 60% do uso residencial de água, 80% do uso de toda madeira e cerca de 80% de emissão de gases. (WU, 2014). No entanto, não se pode considerar a urbanização apenas como responsável por efeitos negativos. Wu (2014) observa que: "Nos últimos 50 anos, a urbanização global acelerou não apenas seu ritmo em termos de população urbana e do ambiente construído, mas também assumiu novas formas de desenvolvimento".
Faeth, Bang e Saari (2011) também observam que as cidades não são inovadoras quanto aos riscos e condições ambientais, já que situações como ilhas de calor, emissão de gases, dentre outras situações, também estão presentes na natureza. No entanto as cidades intensificam vários fatores e riscos ambientais, o que corrobora com a observação feita por Wu (2014).
Áreas verdes em centros urbanos
Todas as estruturas existentes nas cidades, sejam espaços verdes, azuis ou cinzas, podem ser habitats e influenciam nos serviços ecossistêmicos (FARINHA-MARQUES, ET. AL, 2011).No entanto, os espaços verdes são sempre referenciados como de suma importância para a manutenção de biodiversidade e para o serviços ecossistêmicos.
Quanto a vegetação, os humanos possuem amplo controle sobre a diversidade vegetal e a manutenção das plantas nativas auxilia a manter a biodiversidade local. Mesmo a presença das plantas exóticas, que podem propiciar um aumento da quantidade de artrópodes e aves. Um aspeto relatado por Faeth, Bang e Saari (2011) observa que nos ambientes urbanos há uma relação entre o aumento das quantidades e riquezas de plantas, mas com redução da diversidade entre os animais. E em alguns casos pode ocorrer um aumento na quantidade de indivíduos, mas não na riqueza (diversidade) entre as espécies. Quanto as plantas estes autores relatam que são de extrema importância para a manutenção da biodiversidade. Farinha-Marques et. al (2011) também observam que a gestão do espaço verde pode influenciar a biodiversidade local.
O planeamento urbano
Gómez-Baggethun e Barton (2013) destacam a importância do planeamento urbano, já que as cidades dependem do sistema sócio-ecológico, através dos serviços ecossistêmicos. Estes autores também observam que, sob certas condições e percepções da sociedade, pode se considerar a existência de desserviços urbanos, por parte da biodiversidade. Algumas condições podem representar riscos como matas muito densas e escuras, e a possibilidade de proliferação de doenças, muitas transmitidas por espécies invasoras. No entanto, estas situações negativas podem ser refreadas, com um melhor planeamento e cuidado de áreas verdes, zonas húmidas, além de cuidados sócio-econômicos das regiões pavimentadas.
Para favorecer a interação entre pessoas e demais seres vivos, Farinha-Marques et. al (2011) sugerem o planeamento e gestão sustentável deve priorizar a construção de áreas verdes próxima aos bairros, de forma a atrair a visita das pessoas.
Quanto ao planeamento urbano sustentável, um importante aspeto observado por Niemelä (2014), para o que o planeamento urbano possa valorizar os serviços ecossistêmicos, é necessário que exista a colaboração conjunta de várias ciências, incluso as ciências sociais, além da integração entre sociedade e governos. Além de mais pesquisas interdisciplinares.
Conclusão
As cidades podem cumprir um importante papel na proteção e conservação da biodiversidade. Além de suportarem a presença de flora e fauna adaptadas às condições urbanas, também é possível, com o devido planeamento, que tornem-se meios para proteger e integrar a biodiversidade local.
Referências
FAETH, Stanley H.; BANG, Christofer; SAARI, Susanna. Urban biodiversity: patterns and mechanisms. Annals Of The New York Academy Of Sciences, [s.l.], v. 1223, n. 1, p.69-81, mar. 2011. Wiley. http://dx.doi.org/10.1111/j.1749-6632.2010.05925.x.
GÓMEZ-BAGGETHUN, Erik; BARTON, David N.. Classifying and valuing ecosystem services for urban planning. Ecological Economics, [s.l.], v. 86, p.235-245, fev. 2013. Elsevier BV. http://dx.doi.org/10.1016/j.ecolecon.2012.08.019.
SCHNEIDER, Annemarie; FRIEDL, Mark A.; POTERE, David. Mapping global urban areas using MODIS 500-m data: New methods and datasets based on ‘urban ecoregions’. Remote Sensing Of Environment, [s.l.], v. 114, n. 8, p.1733-1746, 16 ago. 2010. Elsevier BV. http://dx.doi.org/10.1016/j.rse.2010.03.003.
NIEMELÄ, Jari. Ecology of urban green spaces: The way forward in answering major research questions. Landscape And Urban Planning, [s.l.], v. 125, p.298-303, maio 2014. Elsevier BV. http://dx.doi.org/10.1016/j.landurbplan.2013.07.014.